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15 de Fevereiro de 2019

Memória UESPI: Dom José Vazquéz Díaz, o educador revolucionário

Por Valéria Soares

Na décima primeira reportagem sobre os campi da série Memória UESPI, vamos contar a história do campus Dom José Vázquez Díaz, localizado na cidade de Bom Jesus, a cerca de 600 km de Teresina.

“Um homem além do seu tempo” era assim definido Dom José Vázquez Díaz. O bispo que veio da Espanha para revolucionar a história de Bom Jesus, trabalhou pela educação e pelo desenvolvimento do sul do estado. Conheça o seu legado.

Dom José Vázquez Días

Dom José Vázquez Díaz | Foto: acervo pessoal

O nome do campus

Inaugurado no dia 17 de fevereiro de 2000, o campus da UESPI em Bom Jesus recebeu como homenagem o nome de Dom José Vázquez pela dedicação que o bispo teve pelo município. A doação do prédio, local que funcionava o mercado público da cidade, foi realizada pelo vereador Fábio Núñez Novo na época. O decreto de nº10.252/2000 instituiu o funcionamento do novo campus. Antes, a instituição funcionava no colégio Franklin Dória.

Prédio da UESPI em Bom Jesus no período de inauguração

Prédio da UESPI em Bom Jesus no período de inauguração| Foto: Acervo pessoal

O autor da biografia de Dom José, Benigno Núnez Novo, destaca que o bispo sempre foi um homem que viu na educação uma grande oportunidade de crescimento e transformação de realidades. “Naquele tempo [década de 60] ele já tinha uma visão muito grande e  fez despertar a importância para formar pessoas. A igreja não tinha que ter só o papel de evangelizar, também tinha o papel de educar, porque o estado não tinha essa função de levar educação para aquela região tão isolada do Piauí”, conta.

Inauguração do campus de Bom Jesus em 17 de fevereiro de 2000

Inauguração do campus de Bom Jesus em 17 de fevereiro de 2000, com a presença do então reitor Jônathas Nunes | Foto: Acervo pessoal

Dom José vislumbrava levar a educação superior para o município, pois era através dela que seria possível formar pessoas para dar continuidade ao processo educacional. O sonho de ter um campus universitário se concretizou em memória póstuma.

Biografia

A história de Dom José é registrada em 80 páginas de um valioso acervo de documentos e fotos. O material reunido por Benigno e  professoras de Bom Jesus, detalha a trajetória do bispo desde o começo da vida até a partida da terra.

Segundo informações da obra, Dom José nasceu no dia 20 de novembro de 1913, na Paróquia de San Juan em Chavaga, Província de Lugo, Espanha. Era o segundo filho de Jesus Vázquez Díaz Senra e Manuela Díaz Vázquez. Nascido em uma família de oito irmãos, cinco homens e três mulheres. Viveu 84 anos, onde parte deles dedicou a vida em trabalhar pela igreja, educação e as pessoas. Findou sua missão em 29 de maio de 1998.

Benigno Núnez Novo, autor da Biografia de Dom José Vasquez

Benigno Núñez Novo, autor da Biografia de Dom José Vázquez

Os primeiros passos de Dom José na vida sacerdotal foram dados no mosteiro de Poio, em Pontevedra, na Espanha. Aos 17, concluiu a primeira fase dos estudos em Chavaga, onde deu início a sua caminhada na religião. Com 11 anos de preparação, foi ordenado sacerdote de Ourense em 8 de novembro de 1936 pelo bispo Dom Cerviño. A primeira missa em que celebrou é datada de 11 de novembro do mesmo ano, na cidade de Verin.

Nessa época, lutou na guerra espanhola como capelão Militar. Com o fim da guerra, em 1938, retornou para o convento e foi nomeado reitor do colégio Tirso de Molina, onde trabalhou por um ano. Logo depois, foi estudar na Faculdade de Física e Ciências Química da Universidade Central de Madri e concluiu a graduação na Universidade de Salamanca, em 1950, onde obteve o título de doutor.  Em 1951 se tornou superior do mosteiro de Poio.

A vinda de Dom José para o Brasil foi motivada pela ordem mercedária, que já realizava missões no país e na época buscou a criação de conventos e paróquias. Ele residiu em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde contribuiu com a fundação das casas mercedárias. Dom José esteve presente na inauguração da primeira casa mercedária de São Paulo.

Chegada no Piauí

Dom José foi o primeiro bispo diocesano a residir em Bom Jesus. No ano de 1956, ele se tornou bispo auxiliar, consagrado por Dom Fernando Quiroga Palácios, Cardeal de Santiago de Compostela com o título de Usula. Quando chegou no Piauí, se instalou na Prelazia [unidade territorial da igreja] de São Raimundo Nonato, mas o seu desejo era pela Prelazia em Bom Jesus. Com a morte de Dom Inocêncio Lopes de Santamaria, em 1958, Dom José assume o quarto Prelado em Bom Jesus. Ele rompe com a tradição de três gerações de bispos e fixa residência na cidade.

Dom José Dias Vasquéz com o Papa João Paulo II

Dom José Vázquez Díaz com o Papa João Paulo II| Foto: Acervo pessoal

O seu primeiro grande trabalho foi a divisão da prelazia em duas. De acordo com a sua biografia, ele escreveu uma carta à Sagrada Congregação Consistorial do Vaticano” justificando todas as razões para a divisão da Prelazia, que foi autorizada pela bula papal de João XXIII “CUM VENERABILIS”, em 17 de dezembro de 1960″, assim relata a obra.

O momento foi celebrado na catedral de São Raimundo Nonato, com a presença de autoridades eclesiais como Dom Avelar Brandão Vilela, Arcebispo de Teresina, Dom Edilberto Dinkeiborg, de Oeiras e Dom José Vázquez Díaz. Outra solicitação importante de Dom José para Roma foi a mudança de Prelazia de Bom Jesus para Diocese de Bom José do Gurguéia. Este título foi adquirido em 3 de novembro de 1981.

“Viriliter age”

Dom José teve como marca um trabalho incansável pelo município de Bom Jesus. Carregava como lema a expressão em latim “Viriliter age”, que na tradução significa “Trabalha varonilmente”. Segundo Benigno Novo, o bispo tinha uma visão de que toda região do Vale do Gurguéia ia crescer rapidamente. Mesmo o extremo sul do Piauí sendo negligenciado pelos governantes do estado na época, Dom José buscou recursos para construir escolas, casas e hospitais.

“Ele foi um articulador político, tinha amizades com o então governador Alberto Silva, que quando ia a Bom Jesus ficava na casa dele. Com Helvídio Nunes também. Além de fazer a questão religiosa, educacional, ele também fazia a questão política. Não é que ele fizesse política partidária, mas ele usava a política para conseguir os benefícios para a população”, explica Benigno.

A educação era uma das suas grandes preocupações. Em Bom Jesus ergueu escolas primárias e secundárias em todas as paróquias. Fundou ginásio em Gilbués, Curimatá, Monte Alegre, Parnaguá e Bom Jesus. Em 1970, fundou a Escola Normal Helvídio Nunes de Barros (ENHNB) em Bom Jesus para a formação de professores. Nela atuou como diretor e professor. A prelazia matinha também na mesma década a Escola Normal, a Escola de Comércio, a Escola de Artesanato, sete ginásios e várias Escolas Primárias.

Marcenaria e serraria criada por Dom José

Marcenaria e serraria criada por Dom José| Foto: Acervo pessoal

Benigno relata que Dom José utilizava da influência religiosa e política para reivindicar obras públicas, como foi com o conjunto de casas Vila das Merces e o hospital de Bom Jesus, que foram construídos no governo de Alberto Silva. Dom José também viabilizou que a BR-135 passasse por dentro da cidade, pois de acordo com o projeto original a rodovia só passaria pelos arredores de Bom Jesus.

Também trabalhou pela construção do seminário da prelazia de Bom Jesus, em 1966. Construiu oficinas de metalurgia, marcenaria e sapataria para promover a mão de obra na região e incentivar a população a buscar a própria renda.“Ele acreditava que as águas do Rio Gurguéia e do subsolo nos transformariam em um novo Nilo pelas riquezas que podiam prosperar na agricultura e em outros setores como o agronegócio e comércio”, destaca Benigno na biografia.

Conjunto Vilas das Mercês idealizado por Dom José

Conjunto Vilas das Mercês idealizado por Dom José | Foto: Acervo Pessoal

Uma das maiores obras idealizadas por Dom José foi a catedral de Nossa Senhora das Mercês de Bom Jesus, com capacidade para 5 mil pessoas. A construção iniciou em 13 de junho de 1972, e tinha como responsáveis Dom José e Dom Abel Alonso Núñez. A igreja levou 5 anos para ser finalizada e teve o suporte do engenheiro português Joaquim de Almeida, dos carpinteiros bonjesuenses Luís Francisco da Silva (Luís Cevero), Antônio do Rêgo Lacerda e Roberval, e os ajudantes, José Luiz, José Barbosa, Agenor e Alfredo Ricardo. Também fizeram parte do conjunto de obras de Dom José o Centro Pastoral de Nolasco, a igreja de Curimatá e de Gilbués.

Catedral de de Bom Jesus em 1977

Catedral de de Bom Jesus em 1977|Foto:  Acervo pessoal

Legado

De 1957 a 1989 Dom José se dedicou a missão de evangelizar por Bom Jesus. Aos 75 anos, passa o bispado para Dom Ramón López Carrozas e vai residir na casa mercedária em Brasília. Lá permanece até o seu falecimento.

A memória de Dom José é preservada na cidade com muito apreço pelo Bonjesuenses. A sua presença ficou registrada de forma bastante simbólica. Realizando um desejo dele, o seu túmulo foi construído dentro da Catedral de Nossa Senhora das Mercês. Também foi erguido uma estátua em sua homenagem no largo da igreja.

Catedral nossa senhora das Mercês em Bom Jesus

Catedral Nossa Senhora das Mercês em Bom Jesus  e a estátua de Dom José Vázquez Díaz

Dom José servia por amor e devoção. Um homem simples, que era querido por todos, principalmente os mais pobres a quem ele dedicava um trabalho com projetos sociais de distribuição de roupas, mantimentos e materiais de construção.

A Professora Maria Ismenha Vieira do Amarante, 45 anos, é uma das pessoas que vivenciou a passagem de Dom José em Bom Jesus. Segundo ela, Dom José foi uma pessoa muito à frente de tudo. “Bom Jesus antigamente não era o que é hoje, bem desenvolvida, com universidade e faculdades. Era uma cidade bem pequena e mesmo assim ele sempre teve essa visão e muito preocupado também com o povo, pois tinha muita pobreza na época”, comenta.

Ismenha acredita que Dom José representa um marco para população da cidade. “Muitos dos que são professores devem isso a Dom José. Porque antes só se fazia o ensino fundamental em Bom Jesus. Quem tinha condição saia, quem não tinha, parava por aí”, lembra.

Para ela, o maior legado de Dom José foi ter olhado pelas pessoas menos favorecidas. As perspectivas de vida no extremo sul do estado eram mínimas. O bispo trabalhou para reverter a situação de um povo que vivia em terras tão longínquas e esquecidas. “ Ele era preocupado de trazer conhecimento e oportunidades de trabalho para essas pessoas que habitavam a cidade. Ele ofereceu de certa forma um futuro digno para muitas pessoas dentro de Bom Jesus”, finaliza.


Na décima reportagem da série “Memória UESPI”, contou-se a história do campus “Ariston Dias Lima”, localizado na cidade de São Raimundo Nonato. Confira aqui.

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