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20 de Março de 2017

Memória UESPI: Clóvis Moura, o militante das relações raciais e sociais

Por Valéria Soares

A segunda reportagem da série Memória UESPI sobre os nomes dos campi da universidade, traz a história do cientista social Clóvis Moura. Conheça a história de mais uma personalidade imortalizada pela instituição, que contribuiu ricamente com a história do Brasil, em defesa de negros, índios, camponeses e outras classes sociais.

Clóvis Moura foi um estudioso nato das relações de conflitos, com ênfase em conceitos como classes, economia, cidadania e política. Além disso, este ano, o campus da UESPI que leva o seu nome celebra 15 anos de fundação. Uma programação especial está sendo elaborada pela instituição, que homenageará o escritor com um memorial.

 

 Escritor Clóvis Steiger de Assis Moura (Foto:www.vermelho.org.br/noticia/289940-1)

Escritor Clóvis Steiger de Assis Moura (Foto: Vermelho.org.br)

 

 Nome do campus

A região do Grande Dirceu, maior bairro da capital Teresinense, recebeu em 2001 o campus da Universidade Estadual do Piauí. O prédio foi intitulado inicialmente de Campus da Região Sudeste, através do decreto N° 10.690/2001. Em 2005, a Assembleia Legislativa aprovou o projeto de lei de nova denominação para o campus. Foi então que passou a ser chamado de Campus Clóvis Moura, em reconhecimento e homenagem ao escritor e historiador piauiense, natural da cidade de Amarante-PI.

O ex-deputado Olavo Rebelo, atual Presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), foi o propositor da Lei Estadual nº. 5.451, de 24 de maio de 2005, que oficializou o nome do Campus localizado no Dirceu. Foi dele também a autoria do projeto de lei para o nome do Campus Poeta Torquato Neto. O projeto de nominação também determina que sejam feitas atividades de comemoração, no dia 10 de junho, em referência à data de nascimento do autor. O integrante da equipe do projeto de nominação, o poeta Paulo Machado, recorda que essa proposição se deu em virtude da importância de Clóvis Moura, por ele ser um grande intelectual brasileiro, nordestino e piauiense.

Paulo Machado conta que Clóvis se dedicou ao magistério superior, à atividade de pesquisa e à produção de textos. “Ele fez uma revisão da história da raça negra no Brasil”, afirma.  O poeta lembra ainda que Clóvis Moura escreveu um livro que se tornou clássico, chamado “Rebeliões na senzala” (1959). Clóvis Moura, além de historiador e escritor, era sociólogo, cientista social, militante das causas sociais, jornalista e poeta. Teve como legado histórico muitos estudos sobre a atuação do negro na sociedade brasileira, além de pesquisas que apresentaram as condições dos movimentos sociais brasileiros.

 

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O Livro “Rebeliões da Senzala” é um dos clássicos de Clóvis Moura e teve sua primeira edição lançada em 1959

 

Clóvis Moura: História e Origens

O segundo filho de Francisco de Assis Moura e Elvira Steiger de Magalhães Moura, irmão de Carlos de Assis Moura e de Maria do Rosário Moura da Cunha, nasceu em Amarante, Piauí, em 1925, e faleceu em dezembro de 2003, em São Paulo, aos 77 anos. Clóvis Steiger de Assis Moura pertencia a uma família de classe média e racialmente mista, cujos pais eram descendentes de fazendeiros maranhenses e baianos. O pai era de família afrodescendente, enquanto a mãe tinha linhagem europeia. Clóvis Moura viveu no seio de uma família que lhe proporcionou uma vasta formação intelectual.

O professor doutor Pedro Pio Fontineles Filho, do curso de História da UESPI,  tem se dedicado a pesquisar a vida e obra de Clóvis Moura.  Ele conta que em meados de 1935, a família de Clóvis Moura mudou-se do Piauí para Natal, no Rio Grande do Norte. Nesse período, Moura, já com 10 anos de idade, estudava no Colégio Diocesano Santo Antônio (futuro colégio Marista). “Lá, ele atuou na criação do Grêmio Cívico-Literário 12 de outubro e do jornal O Potiguar, espaços nos quais deu seus primeiros passos na escrita e na reflexão sobre temas sociais e históricos”, acrescenta o estudioso. Em 1941, a família muda-se para Bahia. O docente destaca que foi o lugar onde Clóvis conheceu e se aproximou da literatura, história e política. Período também em que o escritor se alinhou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), através do movimento literário e cultural Academia dos Rebeldes, que tinha como membros os escritores Jorge Amado e Édison Carneiro.

No decorrer dos anos, por volta das décadas de 1940 e 1950, Clóvis Moura estabeleceu contato intelectual com o historiador Caio Prado Júnior. O Professor Fontineles ressalta que nessa relação de pensamentos políticos e econômicos entre os dois historiadores havia muitas convergências e divergências de opiniões e estudos, em referência à leitura que faziam do desenvolvimento da sociedade brasileira daquela época. “Segundo sua filha, a historiadora Soraya Silva Moura, a relação de Clóvis Moura com os círculos literários soteropolitanos foi fundamental para o seu engajamento político”, afirma o professor.

 

Militância em defesa dos socialmente excluídos

Clóvis Moura era engajado nos espaços literários e partidos políticos, e militava em defesa da liberdade e da democracia. “Ele fez força às bandeiras dos grupos históricos e socialmente excluídos, como negros, índios, camponeses e pobres de maneira geral”, expõe o professor Fontineles. De acordo com o docente, em 1947, Moura se candidata a deputado estadual pela legenda do Partido Socialista Brasileiro (PSB) baiano, e é eleito. Mas tem a candidatura cassada pelo Tribunal Eleitoral, por conta de manobras políticas de outros partidos, segundo um artigo do professora de História da Unicamp, Diorge Konrad.

Em mais uma mudança de cidade, São Paulo se torna a nova moradia de Clóvis Moura. Lá, ele reforça os contatos com os círculos literários e com o jornalismo. O professor Fontineles destaca que, na cidade paulista, Moura atua como redator de importantes jornais e reforça alianças políticas do PCB. Após três anos da chegada de Moura em São Paulo, em 1962, ele rompe com o PCB, e se aproxima do grupo que refundaria o PCdoB. Nessa época, Moura funda a Revista Flama, onde expôs críticas políticas. Por conta disso, passa a ser vigiado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). “No pós-64, mudou-se para o interior de São Paulo, onde atuou em outros jornais, sempre expondo seu olhar para a política e a sociedade”, relata Fontineles.

Clóvis Moura foi um homem de definições políticas e de ideologia forte. Socialista e marxista radical, teve uma vida dedicada a estudos e reflexões críticas do que muito se escreveu na historiografia brasileira sobre as classes operárias, os negros e os camponeses. “Isso é perceptível em suas críticas feitas ao trabalho de Gilberto Freyre, pois, para Clóvis Moura, aquele sociólogo teria negado a existência de luta de classes na relação entre o negro escravo e o proprietário de escravos. Gilberto Freyre teria “romantizado” tal relação, falando de forma suave de conflitos ou acomodações culturais”, explicou o Pedro Fontineles. Dessa forma, o escritor externava, através de um prisma sociológico, os debates sobre o racismo.

 

 

O Professor comenta que são mais de 25 títulos escritos por de Clóvis Moura,hoje, são considerados raros e valiosos

O professor Pedro Pio Fontineles comenta que são mais de 25 títulos escritos por Clóvis Moura

 

Fontineles destaca que Moura atribuiu, em território brasileiro, novos contornos ao pensamento marxista. “O seu pensamento sociológico, embora esteja presente em todos os seus livros, fica mais latente e evidente nos livros Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha (1964), Sociologia de la Praxis (1976), A Sociologia posta em questão (1978), Sacco e Vanzetti (1979), Sociologia do Negro no Brasil (1988) e Sociologia Política da Guerra Camponesa de Canudos (2000) ”, elenca o professor.

Ele ressalta que Moura “buscou compreensões e entendimentos de questões passadas e presentes, fazendo análises comparativas de temporalidades diferentes, mas com similaridades temáticas”. O professor cita como exemplo as reflexões que Moura fez sobre o Movimento dos Sem Terra (MST). Em uma análise de Moura, o MST é associado à Guerra dos Canudos – que foi um confronto entre um movimento sócio-religioso e o Exército da República (1896-1897) na comunidade dos Canudos, interior da Bahia – no que diz respeito às diferentes estratégias de manutenção do poder por parte das elites latifundiárias.

 

Produções históricas, sociológicas e literárias do “pensador Quilombola”

Clóvis Moura, sendo um dos principais intelectuais negros da História do Brasil, tem um trabalho direcionado ao papel dos negros no desenvolvimento da sociedade que transita entre história, literatura e sociologia. O professor Fontineles ressalta que a história dos quilombos só teve produção sistematiza efetivamente a partir da publicação do livro de Moura, Rebeliões da Senzala. Para Clóvis Moura, a História dos períodos Colonial e Imperial deve ser entendida simplesmente como “História do Brasil escravista”.

O docente destaca que as formas de resistência dos negros, no tocante às lutas e guerras, eram formuladas nos livros de Moura com o objetivo de mostrar como os negros arquitetavam derrotar militarmente os senhores de escravos. “Eles traçam planos e estratégias de ataques bem articulados. Seus conhecimentos de guerra e luta vieram de suas tradições africanas”, conta Fontineles. O autor também descreveu, em livros, as formas de resistência dos negros como o suicídio, o aborto, a fuga e o banzo (termo usado pelos africanos na época da escravidão, para representar saudade da terra de origem), para relatar a história vivida pelos negros nas senzalas e quilombos.

Em obras como Quilombos e a rebelião negra (1981) e Quilombos: resistência ao escravismo (1987), Clóvis Moura trabalha diferentes formas de resistência. O Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, publicado em 2004, um ano após a morte de Clóvis Moura, descreve formas de resistência dos negros de forma didático-conceitual. O dicionário contém uma série de verbetes sobre conceitos e expressões de práticas, instrumentos, ações, cultura, política e economia da escravidão negra no Brasil.

 

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Professor Pedro Fontineles com o Dicionário da Escravidão no Brasil do autor Clóvis Moura, publicado em 2004

 

A produção literária de Clóvis Moura, apesar de não ter sido tão extensa quanto a sociológica e histórica, é significativa, porque traz discussões estéticas da literatura e traços biográficos do autor. “Moura dedica muitos poemas para homenagear sua terra natal, falando de sua infância em Amarante e cantando o Rio Parnaíba”, conta Fontineles. As poesias de Moura são compiladas nos livros: Espantalho na feira (1961), Argila da memória (1964), Âncora do Planalto (1964), Manequins Corcundas (1977). Flauta de Argila (1992) e Bahia de todos os homens (1997).

Para Fontineles, a poesia de Clóvis Moura não é só de contemplação ou de homenagem, mas, também, de denúncia e crítica. “Ele deixou um legado para estudiosos, pensadores e pesquisadores, no sentido de que não se pode apenas ‘pensar’, mas, sim, é preciso ‘atuar’, aplicando as teorias sociais e históricas de tal maneira que as desigualdades entre as classes, de diferentes matrizes, sejam combatidas e superadas”, argumenta.

Clóvis Moura é um dos grandes piauienses imortalizado pela UESPI. “Não tem como pensar o racismo no país sem pensar e compreender a história da escravidão”, finaliza o professor Fontineles, mencionando a importância de Clóvis Moura para se compreender a história dos negros no país, da escravidão e da luta de um povo sofrido e guerreiro que, até os dias atuais, busca espaço em uma sociedade cheia de exclusões e preconceitos.

 

Comemorações de 15 anos do Campus Clóvis Moura

Este ano, o Campus Clóvis Moura completa 15 anos de fundação. Para celebrar a data, serão realizadas durante o ano de 2017 atividades em referência à história do campus e do escritor, que ganhará um memorial em sua homenagem. O professor Fontineles, juntamente com o diretor do Campus, Renê Aquino e o Prof. Msc José Arimatéia Ferreira, do curso de História, elaboraram o Projeto de Extensão intitulado “Nas Trilhas de Clóvis Moura: história e memória do Campus e do Intelectual”As comemorações tem como proposta mobilizar toda a comunidade acadêmica e o bairro do grande Dirceu, para tratar a importância social do campus e valorizar o trabalho do intelectual.

 

Fachada do Campus Clóvis Moura, no Bairro Dirceu Arcoverde, em Teresina

Campus Clóvis Moura da UESPI está localizado no Bairro Dirceu Arcoverde, em Teresina

 

De acordo com Fontineles, o projeto pretende também chamar atenção da administração pública estadual e da própria universidade para a aquisição dos livros do autor. Ele lamenta que a vida e obra do autor ainda sejam pouco pesquisadas no Piauí, e frisa que  nada melhor que um acervo para pesquisas futuras dos estudantes de todos os cursos da IES. O diretor do Campus, Renê Aquino, explica que a programação das comemorações será feita em duas vertentes: a primeira é a homenagem ao intelectual que nomina o campus; a outra é a contribuição do campus no ensino superior para o estado e a região do grande Dirceu Arcoverde. As atividades terão início em 12 de junho de 2017.

“O campus Clóvis Moura é um marco para essa região, porque descentralizou a educação superior aqui em Teresina e atende, principalmente, às zonas sudeste e sul da capital”, afirma o diretor. Segundo ele, 70% dos alunos são das duas zonas de Teresina. Ele frisa que, nesse momento, as expectativas se voltam para o reconhecimento do próprio Clóvis Moura, por ser um personagem importante do estado, e também para o reconhecimento das pessoas, desde os diretores até os servidores, que ajudaram na construção do campus ao longo dos 15 anos de existência.


Na primeira reportagem da série “Memória UESPI”, contou-se a história do homenageado “Torquato Neto”, que dá nome ao primeiro Campus da universidade, localizado em Teresina. Confira aqui.

Fonte:
Assessoria de Comunicação - UESPI
ascom.uespi@gmail.com