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15 de Janeiro de 2018

Memória UESPI: Jesualdo Cavalcanti Barros, o líder da educação

 Por Valéria Soares

Na nona reportagem da série Memória UESPI, vamos contar a história do Campus Deputado Jesualdo Cavalcanti Barros, localizado na cidade de Corrente, mais de 600km da capital.

Jesualdo Cavalcanti Barros é um político piauiense que lutou pela educação da região extremo sul do Piauí. No decorrer da vida exerceu a função de secretário do estado, conselheiro do Tribunal de Contas, escritor e participou ativamente da política estudantil dos anos 1950 e 1960. Conheça sua trajetória.

Jesualdo discursando em congresso dos trabalhadores, em 1960 |Foto: arquivo pessoal

Jesualdo discursando em Congresso dos Trabalhadores, em 1960 |Foto: Arquivo Pessoal

O nome do campus

A movimentação pela educação superior na região sul do Piauí ocorreu entre os anos de 1988 e 1992. Um grupo liderado por Jesualdo Cavalcanti criou a Fundação de Ensino Superior do Sul do Piauí (FESPI), instituição comunitária de abrangência em vários municípios.

“Tinha lá em Corrente um pessoal do Rio Grande do Sul e um parente deles foi visitar lá a família, né? E esse cidadão era vice-reitor da universidade de Passo Fundo, o professor Agostinho Both. Então, isso nos motivou muito a criar uma universidade no mesmo modelo dessa de Passo Fundo, que é uma universidade comunitária. Nós conseguimos o apoio do Ministério da Educação, que nesse tempo era o Hugo Napoleão, que era o ministro, e conseguimos recursos. A universidade de Passo Fundo passou a dar assessoria a nós em Corrente, inclusive organizando todo projeto de construção. Construímos um projeto de três mil metros e instalamos tudo direitinho”, conta Jesualdo.

Criação da FESPI em Corrente |Foto: arquivo pessoal

Criação da FESPI em Corrente | Foto: Arquivo Pessoal

A região recebeu do ministro da educação na época, senador Hugo Napoleão, recursos para construção e equipamentos do prédio, com dez salas, auditório, biblioteca, cinco laboratórios e máquinas agrícolas.

Corrente teve o primeiro vestibular em 1992, ofertando cursos de Agronomia em parceria com a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Pedagogia com a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Educação do Estado do Piauí (FADEP), entidade mantenedora dos Centros de Formação de Recursos Humanos para o ensino da rede pública estadual em nível superior, Centro de Teleducação, Centro de Pesquisa. Segundo o livro Memórias dos Confins (2007), de Jesualdo Cavalcanti, o primeiro vestibular ofereceu 60 vagas para o curso de Pedagogia, sendo metade delas para rede estadual e municipal de ensino, e 50 vagas para curso de Agronomia.

Comitiva do governo em visita a reforma do campus em 2002 |Foto: arquivo pessoal

Visita de autoridades locais ao campus durante reforma, em 2002 | Foto: Arquivo Pessoal

Em 25 de fevereiro de 1993, as instalações do prédio construído foram cedidas para UESPI, que estava autorizada a funcionar com uma estrutura multicampi em Corrente, Teresina, Floriano, Picos e Parnaíba, através do decreto do presidente Itamar Franco.

A instituição passou a ser chamada de campus avançado Jesualdo Cavalcanti Barros, através do decreto nº 8997, de 24 de setembro de 1993, assinado pelo então governador na época, Antônio de Almendra Freitas Neto. Segundo Jesualdo, a homenagem recebida é fruto de um esforço de toda comunidade, com ajuda dos recursos federais dele como deputado federal na época.

Vista do campus de Corrente das margens do rio|Foto: arquivo pessoal

Vista do campus de Corrente| Foto: Arquivo Pessoal

“Aquele tempo se fez um esforço muito grande, uma reunião de prefeitos da região, que todos lidavam com problemas da falta de ensino superior. Então, onde é que se estudava? Se estudava em Brasília, se estudava em Salvador, Recife. Era o destino normal dos estudantes daquela região. Vários municípios gravitam em torno de Corrente. O pessoal vestiu a camisa mesmo, as prefeituras passaram a subsidiar, a fornecer recursos de fundo de participação, para essa entidade que foi a primeira fundada, a FESPI”, contou.

Quadra do campus de corrente|Foto: arquivo pessoal

Quadra do campus de Corrente| Foto: Arquivo Pessoal

Jesualdo descreve em Memórias dos Confins o orgulho que foi ter participado da construção da UESPI em Corrente, por ter proporcionado o acesso de tantas pessoas a educação superior, sobretudo os mais pobres. “Eu sou fruto da educação. Eu sou de uma família de 16 irmãos. Quase todos têm curso superior, apesar das distâncias e das dificuldades. Eu vi desde o começo, pelo exemplo de meus pais, que a educação é um caminho. Sem ela não era possível”, revelou.

Trajetória: marcas da repressão

Jesualdo nasceu no seio de uma família numerosa no dia 18 de fevereiro de 1940. O filho de Sebastião de Souza Barros e Iracema Cavalcante Barros foi o décimo primeiro dos 16 irmãos: Justino Cavalcante Barros, Gildete Cavalcante Barros Paraguassu, Maria Cavalcante Rodrigues, Cleomar Cavalcanti Barros Dantas, Joaquim Pimenta Barros, Ildete Cavalcante Barros Benck, Ivanilde Cavalcante Barros, Iracema Cavalcante Barros, João Cavalcante Barros, José Cavalcante Barros, Jailson Cavalcante Barros, Germano Mário Cavalcante Barros, Carlos Augusto Cavalcante Barros, Sebastião Cavalcante Barros, Nivaldo Cavalcante Barros.

Casou-se com Maria do Perpetuo Socorro Rocha Cavalcanti Barros, com quem teve os filhos Jesualdo Cavalcanti Barros Filho (in memorian), Juliana Rocha Cavalcanti Barros e Marina Rocha Cavalcanti Barros Mendes.  Viveu em Corrente durante os primeiros 14 anos de vida, depois se mudou para Goiânia e quando retornou para o Piauí passou a residir em Teresina, cidade em que mora até hoje.

 Jesualdo com a esposa Maria do Perpetuo Socorro Rocha Cavalcanti Barros|Foto:arquivo pessoal

Jesualdo com a esposa, Maria do Perpetuo |Foto: Arquivo Pessoal

Na década de 50, começou a estudar no Liceu Piauiense e logo ingressou no movimento estudantil. “Quando eu estudava no Liceu, eu fazia parte do Grêmio Estudantil, e eu fui presidente desse grêmio. Depois disso, foi fundado a União Piauiense dos Estudantes Secundários, do estado né?! Aí eu fui eleito presidente. E nessa movimentação de liderança estudantil eu terminei me envolvendo em política, me candidatei a vereador”, relata Jesualdo.

Ele também presidiu o Centro de Estudos da Mocidade Idealista do Piauí (CEMIP), que reunia jovens de sua geração em torno da discussão dos problemas do Piauí e do Brasil. Muito atuante na esfera política decidiu ser candidato a vereador de Teresina, e foi eleito em 1962. O Brasil no período passava por uma forte manifestação ideológica das reformas de base do governo de João Goulart, segundo Jesualdo. “Eu me vinculei muito, me aproximei muito do governador do Piauí, que era do PTB, Chagas Rodrigues. E eu terminei sendo candidato a vereador pelo PTB. Fui eleito, mas perdi o mandato em 64, por conta o golpe militar, em abril de 64. Fui processado, cassado e preso”, afirma.

Jesualdo na câmara dos vereadores em 1993|Foto:arquivo pessoal

Jesualdo na Câmara dos Vereadores em 1993|Foto: Arquivo Pessoal

Ele passou 60 dias preso no quartel do 25ºBC (Batalhão de Caçadores) e na penitenciária de Teresina, onde hoje funciona o Ginásio Verdão.  No livro que Jesualdo publicou em 2006, Tempo de Contar: o que vi e sofri nos idos de 1964, ele relata a situação degradante que passou: “Jogaram-me numa fétida e exígua solitária, que mal me cabia deitado e onde penetrava uma pífia réstia de luz, e lá permaneci por 48 horas. Dispunha de uma lata vazia de manteiga para urinar, sempre prestigiado pela companhia de formigas e baratas”.

Ele conta que foi preso por ter pensamentos contrários ao sistema. “Os militares tomaram o poder e eu era detido. Eu lutava pelo que se luta hoje: qualidade de ensino, qualidade de saúde, mais ou menos o que se queria era isso. Uma mudança de país. O pessoal pensava de uma forma diferente. Por isso que eles deram o golpe e derrubaram o presidente, João Goulart”, disse.

Os grandes feitos na política

Depois de 10 anos, Jesualdo retoma as atividades políticas. Na primeira vez que se candidatou a Deputado Estadual não foi eleito. Somente em 1978 se elegeu deputado estadual pela primeira vez e 1982 foi reeleito. Formado em Direito pela Faculdade Federal de Direito do Piauí (hoje UFPI) em 1966, dirigia um escritório de consultoria e planejamento de administração municipal (1967/1979), que atendia inúmeros municípios do Piauí.

Jesualdo na inauguração do piso superior da ALEPI|Foto: arquivo pessoal

Jesualdo na inauguração do piso superior da ALEPI | Foto: Arquivo Pessoal

Enquanto Deputado Estadual foi Secretário de Cultura, Desportos e Turismo e Presidente da Fundação Cultural do Piauí (1983/1986). Segundo ele, nesse período foram implantados o Projeto “Petrônio Portela”, de que resultou a publicação de cerca de 40 obras de autores piauienses que versavam sobre temas piauienses; foram publicadas 13 edições da Revista Presença (revista de divulgação da literatura e da arte piauienses).  Além disso, a Escola de Dança do Piauí (Teresina), a Casa Odilon Nunes (Amarante), a Casa da Cultura de Corrente, o Espaço Cultural Maria Bonita (Floriano), o Museu de Arte Sacra (Oeiras), o Museu do Couro (Campo Maior). Ainda os hotéis RIMO em Corrente, Canto do Buriti, Pedro II e Esperantina, além da Pousada Velho Monge (Amarante) e da Pousada do Cônego (Oeiras).

Muito defensor da preservação do Patrimônio Histórico, quando estava como secretário de cultura, participou de um movimento para barrar a demolição do Clube dos Diários,  que previa  a construção de um Shopping no local. “Houve uma negociação de uma pessoa que se considerava dono do clube para ser construído um shopping ali, como o clube dos diários foi fundando em 1922, de uma ligação muito estreita com a vida social de Teresina, tudo que era importante ocorria lá. Então, deixar que um prédio desse com esse valor todo fosse demolido, para dar lugar a um shopping que poderia ser construído em qualquer lugar, nós decretamos, com o apoio do governador, o tombamento do clube dos diários. Isso evitou que ele fosse vendido”, memora.

Em 1987 foi eleito deputado federal e participou da elaboração da Constituição Cidadã, a Constituição Federal de 1988. Segundo o site do Senado Federal, a Constituição promulgada no dia 5 de outubro de 1988, durante o governo de José Sarney, é conhecida por “Constituição Cidadã”, por adotar em seus fundamentos uma maior liberdade e direitos ao cidadão – reduzidos durante o regime militar – e manter o Estado como república presidencialista. Ela é a sétima adotada no país.

Assinatura da constituição cidadã |Foto:arquivo pessoal

Assinatura da constituição cidadã |Foto: Arquivo Pessoal

Jesualdo voltou a ser deputado estadual em 1990, nessa época foi escolhido por seus pares como presidente da Assembleia Legislativa para o biênio 1991/1993. Se candidatou a prefeito de Teresina em 1992, mas não foi eleito. Em 1994 assumiu a presidência do Tribunal de Contas do Estado pela Assembleia Legislativa. Resolveu se aposentar voluntariamente em 2002 para dedicar-se as pesquisas sobre história do Piauí. Voltou a vida política em 2012, se candidatou e foi eleito prefeito de Corrente, terminando o último mandato da carreira em 2016.

Campanha para prefeito em 1992|Foto:arquivo pessoal

Campanha para prefeito em 1992| Foto: Arquivo Pessoal

Defensor do Gurguéia

Quando se afastou para realizar pesquisa sobre a história do Piauí participou da criação do Centro de Estudos e Debates do Gurgueia (Cedeg), sendo escolhido presidente. A frente do órgão, promoveu vários eventos para divulgação da ideia e esclarecimento sobre a viabilidade técnica de criação do novo estado do Gurguéia. Ainda como deputado federal, apresentou na Câmara Federal a proposta de criação do Estado do Gurgueia.

Centrou sua atividade política e intelectual para a região. Por que acha que é uma região muito esquecida, e de certa forma é um desafio aos moradores trabalhar para a região, pelas dificuldades serem maiores, devido à distância.  Mas também, segundo Jesualdo, Corrente é uma cidade de um bom nível cultural, porque desde cedo ela se tornou uma espécie de centro educacional.

Lançamento do livro Memória dos Confins|Foto: arquivo pessoal

Lançamento do livro Memória dos Confins, em 2007 | Foto: Arquivo Pessoal

“Lá se instalaram as americanas no começo do século passado, O Instituto Batista Correntino, que até hoje ainda existe.  A Igreja Batista, a igreja protestante, ela se instalou primeiramente em corrente. Ela não se instalou em Teresina e tomou o rumo do interior, não! Ela foi instalada em Corrente primeiramente, em 1904. E esse pessoal também era muito preocupado com a educação. Tanto que esse colégio recebia gente, quando tinha internato, recebia gente de várias partes do Brasil. Aqueles estados limítrofes do Piauí. Então, ia muita gente estudar em Corrente. Sempre foi um centro recente, como muita mobilidade, muito dinamismo”, comentou.

O  membro da Academia Piauiense de Letras, de posse da cadeira nº 03 (Patrono: Padre Joaquim Sampaio Castelo Branco), retribui a história da região através dos livros: “Tempo de Cultura” (1985), “O Estado do Gurgueia e Outros Temas” (1995), “Notícia do Gurgueia” (2002), “Tempo de Tribunal” (2003), “Memória dos Confins” (1ª edição em 2005 e 2ª edição em 2007), “Dicionário Enciclopédico do Gurgueia” (2008),  “Tempo de contar” (2006), “Gurgueia: espaço, tempo e sociedade” (2009) e “Sertões de bacharéis” (2011).


Na oitava reportagem da série “Memória UESPI”, contou-se a história do campus “Antônio de Barros Araújo”, localizado na cidade de Picos. Confira aqui.

Fonte:
Assessoria de Comunicação - UESPI
comunicacao@uespi.br