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18 de Dezembro de 2017

Memória UESPI: Antônio de Barros Araújo, o filho do sertão

 Por Valéria Soares

Na oitava reportagem da série Memória UESPI vamos contar a história de Antônio de Barros Araújo, homenageado pelo campus da cidade de Picos, a 310km de Teresina.

Antônio de Barros Araújo foi tabelião, advogado, político e professor. Na região em que morava, era conhecido pela simplicidade, carisma e amor pela educação. Como representante político do município, foi Deputado Estadual e Prefeito durante boa parte da sua vida. Conheça o seu legado.

O nome do campus

O Campus de Picos foi criado através da Lei Estadual nº 4619, de 21 de setembro de 1993, publicada no diário oficial do dia 26 de fevereiro de 1993, com a assinatura do presidente da República na época, Itamar Franco. Em 1994, o decreto nº. 9.170, de 30 de março, atribuiu ao Professor Antônio de Barros Araújo a nomeação do campus da UESPI, localizado na região centro-sul do estado.

O atual campus da UESPI de Picos situado na Br-316, no bairro Altamira, é o primeiro prédio inteiramente planejado e construído para sediar a universidade, sendo uma obra financiada pelo estado, através da Secretaria da Infraestrutura (Seinfra). O antigo prédio ficava localizado na Av. Senador Elvídio Nunes de Barros, S/N, bairro Junco.

Fachada do prédio da UESPI de Picos

Fachada do prédio da UESPI de Picos

A homenagem feita pela instituição foi dada ainda em vida. “E eu lhe digo sem medo de errar, foi a homenagem que mais o marcou. Era a que ele se identificava. Meu pai era deslumbrado com essas coisas de educação”, afirmou o filho mais velho, Kennedy Barros. Ser professor foi uma das primeiras profissões de Barros Araújo, como era também a que ele mais gostava de atuar.

Menino do sertão

Antônio de Barros Araújo nasceu no dia 03 de setembro de 1934 em meio a uma realidade típica do sertão nordestino, da década de 30, na pacata cidade de Picos. De origem humilde, família simples, o filho de Joaquim Antônio de Araújo e Maria Alvina de Araújo, teve que abandonar bem cedo os familiares para ir em busca dos estudos, assim como os seus irmãos Amparo Araújo Barros, Maria Helena Barros Araújo Luz, Maria dos Remédios Barros Araújo Lima, José de Barros Araújo, Raimundo de Barros Araújo, Francisca Maria Barros Rego Leal e Abel de Barros Araújo.

Antônio de Barros Araújo e os 6 irmãos

Antônio de Barros Araújo e os 6 irmãos | Foto: arquivo pessoal

Barros Araújo era de uma família muito limitada do ponto de vista financeiro, mas que acreditava que o estudo era o caminho. “ Para os meus avôs, sem estudo ninguém chegava a lugar nenhum. Por isso resolveram falar com a Tia Cota, que morava em Floriano, para o meu pai e seus irmãos estudarem lá. Naquela época, Floriano era quem tinha um estudo mais avançado”, conta Kennedy.

O pedido feito através de uma carta descrevia uma certa vergonha em contar o drama de educarem os filhos. Kennedy destaca que mesmo assim tentaram pela oportunidade de dar o conhecimento para os filhos crescerem na vida. “Tia Cota era muito generosa e também muito religiosa. Achou bonito o gesto, e sugeriu que não mandasse um, mandasse dois. Que estavam na dúvida se mandava a tia Amparo ou papai. A Vovó, pra você ver como é as coisas, achava que tinha que mandar tia Amparo. Que achava que papai devia ser padre. E vovô não! Ele achava o contrário. Achava que devia mandar papai, que era o mais velho. O fato é que tia Cota concordou que eram os dois e então foram meu pai e tia Amparo para Floriano”, disse Kennedy.

A vida em Floriano mesclava entre trabalho e estudo. Kennedy relata a dificuldade do pai para ter o alimento na mesa: “Papai me disse que tinha um bairro lá chamado Cansanção, onde eles moravam. Todo dia, ele me dizia que acordavam 4:30 da manhã, e iam pro mercado vender pitomba. As 5:30 eles voltavam pra casa, para tomar banho, e ir pro colégio. Então, ali era um mutirão que fazia na casa, que todo mundo fazia um pouquinho, para poder garantir o sustento da família”, explica.

 Os pais Joaquim Antônio de Araújo e Maria Alvina de Araújo | Foto: Arquivo Pessoal

Os pais Joaquim Antônio de Araújo e Maria Alvina de Araújo | Foto: Arquivo Pessoal

Mas chegou um momento em que Floriano já não atendia mais a sequência dos estudos.  Na época, apenas Teresina ofertava o ensino médio e superior. “Sem condição nenhuma. Tia Cota disse ‘eu vou levar meus filhos tudim’ ”, enfatizou Kennedy.  Então, seguiram para a capital. Nos primeiros meses moraram em uma casa por trás da igreja que um Pároco forneceu. Lugar que anos depois passou a funcionar a Toca de Assis. Segundo Kennedy, para a Tia Cota ter uma casa no fundo da igreja era como uma providência divina, porque a família sempre foi muito religiosa.

O estudo era o caminho

Consciente de que a educação é o trajeto percorrido pelos sábios, o professor Barros colocou os pés na estrada. Cada passo lhe exigiu muita dedicação, abnegação e persistência. Morando em casa de favor, foi aconselhado pelos pais a estudar muito para não ter um futuro sem perspectivas e para não continuar o trabalho sofrido na roça, que os pais tiveram que passar para criar os sete filhos.

Em Teresina, estudou no Liceu Piauiense, e em 1954 concluiu o ensino médio. De acordo com Kennedy, o pai participou de uma competição na escola em que o aluno que mais se destacasse ganharia uma viagem pelo Brasil, e Barros levou o primeiro lugar. Porém, o período das férias era destinado a passar com os pais em Picos, e a viagem seria no mesmo momento. A falta da família era grande, e ele não queria desistir de ir para Picos, o que já era uma coisa muito difícil de acontecer, por conta da distância e a dificuldade no transporte. A decisão foi dar o prêmio para o segundo colocado da disputa, e matar a saudade do sertão.

Barros Araújo era um estudante bastante aplicado | Foto: arquivo pessoal

Barros Araújo era um estudante bastante aplicado| Foto: arquivo pessoal

Barros era um estudante aplicado. A filha, Lívia Barros, conta que o pai não tinha condição para comprar livros, e ia estudar na Biblioteca Estadual Cromwell de Carvalho, no centro da cidade de Teresina. “Ele me disse que cansou de ficar lá até a hora de fechar e apagar a luz. A mulher dizia ‘eu já vou fechar’, e aí ele ia embora”, Lívia memora as histórias da adolescência do pai. E acrescenta dizendo que mesmo ele estudando durante o dia todo, quando viu o primo [Nelson] estudando tarde da noite à luz de lamparina, sentiu-se irresponsável.

Marrapaz, eu aqui na casa da mãe dele, de favor, mas ele tá fazendo mais por onde do que eu. Por mais que esteja estudando, ele estudando a luz da lamparina, e eu fico é com sono. A partir da manhã isso vai mudar”, contou Kennedy interpretando os feitos do pai.

Colhendo os frutos

Segundo a irmã, Remédio Barros, ele começou a trabalhar bem jovem no magistério. Foi professor de várias instituições de ensino. Em Teresina, fez o curso de Direito na Faculdade de Direito do Piauí (FADI), e ao concluir o curso chegou a advogar, também exercendo a função de tabelião. Quando Barros volta para morar em Picos, ingressa na carreira política.

Dia da colação de grau de Antônio Barros Araújo| Foto: arquivo pessoal

Dia da colação de grau de Antônio Barros Araújo| Foto: arquivo pessoal

Primeiro se filiou a União Democrática Nacional (UDN), e depois migrou para Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Foi eleito pela primeira vez em 1970, como prefeito do município. A irmã destaca que ele se elegeu a deputado estadual cinco vezes, o primeiro mandato iniciou em 1975.

“Em 1991 assumiu a Secretaria de Justiça do Estado do Piauí, ocasião em que concluiu e inaugurou a Casa de Custódia de Teresina.  Em 1992, foi o primeiro Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, escolhido pela Assembleia Legislativa”, conta Remédios. Os filhos ressaltam que de todas as profissões que teve, ser professor era a que mais gostava. Por onde passava em Picos era conhecido como “o professor”, ministrava aulas mesmo quando dava expediente durante a manhã e a tarde como prefeito do município.

Exemplo de pai

“Meu pai sempre foi uma pessoa assim muito amável, tranquila. Não era de conversar tanto assim, mas era muito carinhoso”, afirmou o filho mais novo, Antônio de Barros Filho. Vindo de uma origem humilde, Barros aprendeu desde cedo a dar valor a tudo que tinha, sobretudo, a família.

Os quatro filhos e a primeira esposa de Antônio Barros Filho

Os quatro filhos e a primeira esposa de Antônio Barros Filho |Foto: Arquivo Pessoal 

O primeiro casamento foi com Maria dos Remédios Portela Nogueira Barros, com que teve os quatro filhos: Kennedy Barros, Lívia Maria Nogueira Barros, Márcia Nogueira Barros (in memoriam) e Antônio de Barros Araújo Filho. Com o falecimento da primeira esposa, causou-se novamente com Conceição Alves, que conviveu até o fim da vida.

Os filhos destacam que tudo feito pelo pai era cheio de afeto e zelo. Integrante de uma família extremamente católica, olhava a vida como uma grande missão. Ele foi membro dos Vicentinos, movimento católico que se dedica a ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica.  O filho Kennedy Barros acompanhou os passos do pai em muitas dessas vocações: foi também Vicentino, além de advogado, Deputado Estadual e, atualmente, Presidente do Tribunal de Contas do Estado.

“Sempre os filhos seguem as pegadas do pai, principalmente, quando é de bom exemplo. Eu me lembro que quando eu era menino, com 15 anos de idade, eu falei num comício. Claro que não era um discurso. Mas já era uma situação vivida, da vocação que meu pai exercia. Foi assim que veio o meu ingresso na vida pública e também na advocacia. Tudo isso tem a ver com o modelo que ele representava pra gente”, explica Kennedy.

Os filhos Lívia, Barros Filho e Kennedy no café da manhã de tradição da família

Os filhos Lívia, Barros Filho e Kennedy no café da manhã de tradição da família

Os três filhos, Kennedy, Lívia e Barros Filho semanalmente se reúnem aos sábados, no café da manhã, para relembrar as histórias do pai. A tradição começou ainda com o pai, que faleceu em 2015. “A gente se reunia com ele, principalmente o Kennedy. Ele convocava a gente, mas nem sempre dava. Cada um tem sua vida e tal. Mas a iniciativa sempre partia dele e era bem marcante”, comentou Barros Filho.

Para Lívia, hoje é umas das formas de lembrar das vivências que teve ao lado do pai.  “A lembrança dele é muito boa. Para mim, ele foi um ser muito iluminado”, finaliza.


Na sétima reportagem da série “Memória UESPI”, contou-se a história do campus “Possidônio Queiroz”, localizado na cidade de Oeiras. Confira aqui.

Fonte:
Assessoria de Comunicação - UESPI
ascom.uespi@gmail.com