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7 de Julho de 2017

Memória UESPI: Josefina Demes, a navegante das palavras

 Por Valéria Soares

A sexta reportagem da série memória UESPI traz a história da farmacêutica e professora Josefina Demes, homenageada pelo campus da Universidade Estadual do Piauí, na cidade de Floriano, localizada cerca de 250 km de Teresina.

Josefina Demes carregou o pioneirismo como vocação de vida e teve as palavras como guia. Por 30 anos, a cidadã florianense e descendente árabe, dedicou-se a uma pesquisa inédita sobre a história de Floriano, que resultou em um livro póstumo. Ela também foi a primeira mulher a conquistar um título superior em Floriano e  a primeira mulher homenageada com seu nome em um campus da UESPI. Conheça o legado de Josefina Demes.

 O nome do campus

O campus de Floriano foi implantado no processo de expansão e interiorização da UESPI no Piauí, entre os anos de 1991 e 1993, juntamente com os campi das cidades de Picos, Corrente e Parnaíba.  Nos primeiros anos do campus no município, a comunidade acadêmica chamava o prédio de “campus de Floriano”. No ano de 2005,  a então deputada Maria José Leão propôs, através do  projeto de Lei nº 5.550/2005, que o prédio universitário passasse a ser chamado de “ Drª Josefina Demes”.

A família de Josefina Demes reconhece que a homenagem póstuma é muito justa, porque Josefina, mesmo sendo graduada em Farmácia, sempre atuou nas área da educação. Segundo a irmã, Maria Demes, 88 anos, doutora Josefina se dedicou à educação de Floriano. “Ela dedicou a vida dela foi para o magistério, era onde ela se sentia realizada”, afirma. Além do prédio da UESPI na cidade, o legado de Josefina é lembrado em uma sala no campus, na biblioteca escolar do PREMEN (Programa de Expansão e Melhoria do Ensino), e na Escola Josefina Demes, no bairro Malhada da Pedra. Além de nomear prédios públicos, Josefina Demes foi homenageada pelo governo do estado com a medalha do Mérito Renascença, outorgada pelo ex-governador Francisco de Assis de Morais Sousa (Mão Santa).

 

Fachada do campus de Floriano Drª Josefina Demes

Fachada do campus de Floriano Drª Josefina Demes 

Josefina Demes: origens e história

Josefina Demes foi umas das muitas crianças que migraram da Síria para o Brasil, fugindo da guerra. A filha de Auad José Demes e Séda Demes era a terceira de cinco irmãos: Joseph Demes (in memorian), Michel Demes (in memorian), Maria Demes e José Demes Filho.  Nasceu em 10 de dezembro de 1920 em Kabab,  distrito de Auran, na Síria, mas foi registrada no Brasil, em Salvador, quando conseguiu fugir do país com a mãe e o irmão, Michel.

Maria Demes conta que, muito antes de Josefina nascer, a imigração dos seus familiares para o Brasil já havia começado.  “Meu pai veio pra cá com 16 anos. Uma criança”, diz. Segundo ela, no período em que os turcos dominaram a Síria, os filhos dos sírios eram enviados para a guerra, e não os filhos dos turcos. “Mas teve os que se rebelaram. Os rapazotes que estavam mais ou menos na idade fugiram pra não entrar em guerra a favor dos turcos. E assim meu pai veio pra cá [Brasil], viajando muito tempo, mais de mês”, relata.

Josefina Demes e o pai José Auad Demes

Josefina Demes e o pai  Auad José Demes | Foto: Arquivo Pessoal

Segundo Maria Demes, o objetivo do pai era tentar a sorte em terras mais tranquilas. Depois de passar um tempo no Maranhão, decidiu ir para Floriano, onde muito de seus conterrâneos já residiam. “Quando ele chegou aqui, começou a negociar, mas era tudo muito difícil. Sem dinheiro. Mas encontrou muita gente que ajudasse ele”, conta.  Auad começou a montar o comércio, onde vendia produtos importados e tapetes. Depois de juntar dinheiro, regressou para a Síria e casou com Séda Demes, e teve os primeiros três filhos. Maria conta que houve outra guerra e só o pai conseguiu vir para o Brasil.

“A minha irmã e meus irmãos viveram na maior dificuldade, porque naquele tempo não tinha como se enviar dinheiro. Só era possível mandar dinheiro quando uma pessoa ia pra lá e levava. Tinha um tio lá que era irmão da minha mãe, e que ajudou em tudo lá. E ela [mãe] só veio pra cá quando terminou a guerra”, conta a irmã de Josefina, que já nasceu no Brasil, quando a família se estabilizou.

Na vinda da família para o Brasil, só vieram a mãe e os irmãos Josefina e Michel, porque o primogênito falecera ainda na Síria, devido a uma doença. “Quando eles chegaram aqui, minha mãe e meu pai ainda tiveram uma filha na minha frente, que faleceu, com poucos meses. Depois teve o caçula, José Demes Filhos, que hoje mora em Brasília”, diz Maria.

Fotografias da mãe, irmãos e Josefina Demes quando ainda residiam na Síria

Família Demes, quando ainda residiam na Síria

Maria lembra que quando nasceu sua irmã já tinha 9 anos de idade. Devido à diferença de idade, não puderam compartilhar uma infância juntas. “Ela foi estudar em Teresina e eu fiquei aqui. Quando ela terminou, veio pra cá como professora. Depois foi estudar no Ceará a graduação em Farmácia. E quando voltou, já fui eu quem saí pro Ceará, porque não tinha científico aqui, só tinha ginásio. Aí eu tive que ir para o Ceará. Passei 6 anos lá. Também me formei em Farmácia, porque não tinha outra carreira naquele tempo”, comenta.

A primeira mulher graduada de Floriano

 A trajetória profissional de Josefina começou logo na saída para Teresina. No Colégio das Irmãs, concluiu o curso normal e adquiriu o título de professora normalista, no ano de 1938. No regresso a Floriano, foi professora da cadeira de Física da Escola Normal do município, depois na Escola Normal Regional de Floriano. No ano de 1949, no Ceará, se graduou em Farmácia pela Faculdade de Farmácia e Odontologia, estado onde também iniciou os estudos em Filosofia, que não chegou a concluir.

Segundo o amigo e ex-aluno Luís Paulo Lopes, Josefina foi a primeira mulher graduada de Floriano. Foi também proprietária da farmácia Nossa Senhora das Graças, em Floriano, que não durou muito tempo. “Ela dava as coisas. As pessoas iam lá com a receita, eram pobres, iam com neném doente no braço e ela dava as coisas”, conta, revelando o perfil humanitário de Josefina. De acordo com ele, até o fim da vida ela manteve um laboratório de manipulação onde produzia Aguardente Alemã.

Placa de formatura da doutora Josefina Demes

Placa de formatura da doutora Josefina Demes

Maria Demes destaca que ela era farmacêutica, mas a vocação que tinha mesmo era para a docência. “Adorava ensinar. Ensinava tudo quanto era disciplina.  Todo professor que faltava chamavam a doutora. Ela ia e entendia de tudo. Muito preparada, muito culta. Gostava de ler, gostava de estudar. E foi ficando aqui, foi diretora de colégio também”, detalha.

Em Floriano, Josefina Demes lecionou em muitas escolas; em algumas, assumiu a direção. Foi professora no Colégio Comercial Noeme Melo e no Ginásio Santa Teresinha, onde também foi diretora. Lecionou também no Ginásio Estadual de Floriano, no Centro Educacional Fundação Fernando Ferrari, e na Unidade Escolar Monsenhor Lindolfo Uchôa. Além disso, por muitos anos trabalhou na Escola Técnica de Comércio, onde ministrou aula por 27 anos e foi diretora por 25 anos. “Foi professora de Geografia, de História e de OSPB (Organização Social e Política Brasileira)”, reitera Luís Paulo.

Professora Luís Paulo, amigo e ex-aluno de Josefina Demes

Luís Paulo Lopes, amigo e ex-aluno de Josefina Demes

Desde que morou no Ceará, relatam que ela era envolvida com movimentos estudantis. Sempre em prol de causas sociais e benefícios para o município de Floriano, era engajada nos partidos políticos locais. De acordo com Luís e Maria, ela foi candidata a vereadora, teve muitos votos, mas não foi eleita porque a legenda do partido não atingiu o número mínimo para o pleito.

Acervo histórico de Floriano

A professora que ensinou boa parte dos cidadãos florianenses também era dotada de uma memória invejável. O primo Nagib Demes, 91 anos, ressalta que Josefina foi uma mulher de inteligência vasta e memória incrível. “Ela era o arquivo público daqui de Floriano. Sempre que se perguntava alguma coisa sobre Floriano, era ela quem sabia responder”, fala, risonho.

O amigo Luís Paulo completa, destacando que Josefina era uma moça muito culta. “Ela tinha conhecimento de história universal e cultura árabe, porque ela era árabe. Além disso, tinha uma representação política muito grande”. Depois de muitos anos se dedicando à sala de aula, Josefina Demes teve que ficar reclusa até o fim da vida, devido a uma paralisia. Mas, no período de reclusão, ela se debruçou nas pesquisas para escrever um livro sobre a história de Floriano.

Registro de Josefina Demes na colação de grau da Escola Normal do Sagrado Coração de Jesus

Registro de Josefina Demes na colação de grau da Escola Normal do Sagrado Coração de Jesus

Segundo Maria Demes, era um desejo dela deixar algo escrito sobre Floriano, e ela juntou muitos documentos. Todo mundo que queria saber algo sobre a cidade a procurava. “Então ela começou a escrever um livro e passou 30 anos procurando informações para escrevê-lo. Ela queria contar a história de Floriano. Ela achava que Floriano era uma cidade sem história. Era preciso deixar alguma coisa. Começou, mas não chegou a terminar, porque ela faleceu em 2002. Tinha muito mais coisa. Mas depois de uns dois anos do falecimento dela, eu ajeitei o livro”, comenta Maria Demes.

D. Maria Demes, com o livro da irmã, doutora Josefina Demes

D. Maria Demes, com o livro da irmã, doutora Josefina Demes

O livro “Floriano: sua história, sua gente” foi organizado por Maria Demes e Luis Paulo Lopes. Segundo eles, Josefina deixou muitos escritos à mão, que foi preciso digitar e organizar, além de confirmar dados e fontes. “Ela fez um trabalho fantástico. Ela buscou lá na casa Garcia D’avila e foi puxando pelos sertões de dentro, de Cabrobó, daquela região toda que veio a entrada da civilização no Piauí. Eu tinha muitos documentos aqui, porque passei muito tempo na casa Anísio Brito em Teresina, e dei todos pra ela. Porque quando foi abrir um museu aqui, eu fui pra lá buscar a história de Floriano. Eu era muito amigo do secretário, Jesualdo na época, e eu tinha franco acesso a Anísio Brito. Então muitos documentos eu cedi pra ela”, disse Luís. Atualmente, o livro é a principal fonte sobre a história do município.

As contribuições dos Árabes em Floriano

Josefina, muito ciente da importância dos sírios em Floriano, descreveu no livro as origens e o percurso da imigração dos povos árabes na região. Segundo ela, data do ano de 1889 o início da presença de árabes em terras florianenses. No livro, a autora conta que o primeiro árabe na cidade foi Antun Zarur, natural de Malula, cidade a poucos quilômetros de Damasco, capital da Síria.

Segundo Nagib Demes, a presença dos sírios deu um impulso muito grande na região. “Nessa época, Floriano era a ‘capital’ do Piauí. Todo muito se abastecia aqui”, lembra. O Sr. Nagib é descendentes de sírios, mas já nasceu no Brasil, na cidade de Benedito Leite, no Maranhão. Chegou em 1940 na cidade e se tornou um dos grandes comerciantes da região central, na área de materiais de construção. Hoje, ele é um dos últimos filhos de sírios em Floriano, atuando no segmento alavancado pelos árabes.

Sr. Nagib Demes, um dos últimos comerciantes de descendência síria em Floriano

Sr. Nagib Demes, um dos últimos comerciantes de descendência síria em Floriano

Porém, a aceitação do povo árabe não se deu de maneira pacífica, em um primeiro momento. Segundo Josefina relata em seu livro, nos anos de 1915 eles foram rejeitados e expulsos pelos comerciantes locais. O motivo foi a concorrência e as vendas de produtos importados. Uma expulsão quase que simbólica, porque o povo árabe se mudou para a vila de Barão de Grajaú, cidade fronteira com Floriano. Embora a mudança não perdurasse tanto tempo, marcou a história da presença árabe no Piauí.

De acordo com Luís Paulo, os florianenses aceitaram os árabes posteriormente, pois se tratava de um povo pacato e de pessoas de bem. “Eles chegaram se aproximando, fazendo amizades. Aqui muitos ficaram ricos, porque eles adotaram esse lugar como terras deles. Uns voltaram pra lá, mas já velhos e bem ricos. E foram ficando”, conta. Luís Paulo destaca que a cultura, tradições, arquitetura e a culinária árabe também prevaleceram na cidade.

Reprodução do cartaz do centenário de imigração Árabe em Floriano

Reprodução do cartaz do centenário da imigração Árabe em Floriano-PI

Floriano comemorou os 100 anos da imigração árabe com uma grande festa durante os dias 26, 27 e 28 de julho de 1989. A festa, realizada na Rua São Pedro, simbolizava uma mescla de passado e presente. “Brasileiros e árabes, irmanados pelo mesmo sentimento, festejaram a efeméride com grandes demonstrações de alegria”, descreve Josefina, em seu livro. As mais de 600 páginas do livro sobre Floriano são resultados da coragem, determinação e amor de Josefina Demes.  A imigrante árabe deixou um grande legado para Floriano, a terra que acolheu seus conterrâneos como filhos.

Fonte:
Assessoria de Comunicação - UESPI
ascom.uespi@gmail.com