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11 de Abril de 2017

Memória UESPI: Heróis do Jenipapo, as marcas da resistência

Por Valéria Soares

A série Memória UESPI conta, na terceira reportagem especial, a história do Campus Heróis do Jenipapo,que homenageia um dos acontecimentos mais importantes da história do Piauí, localizado no município de Campo Maior, a 85 km de Teresina. Às margens do Rio Jenipapo, do dia 13 de março de 1823, a cidade de Campo Maior viveu uma das batalhas mais sangrentas da história do Brasil.

O conflito, que culminou com o processo de emancipação do país, reuniu piauienses, maranhenses e cearenses, liderados por Luís Rodrigues Chaves, João da Costa Alecrim, Salvador Cardoso de Oliveira, Alexandre Nery Pereira Nereu, Pedro Francisco Martins e Simplício José da Silva, para lutar contra as tropas armadas de Portugal, comandadas pelo Major José da Cunha Fidié.

A luta se consagrou como a Batalha do Jenipapo, e até hoje é lembrada pela população como um ato de coragem, por parte daqueles que lutaram com facões, machados e porretes e morreram em defesa da liberdade do Piauí. Passou a ser símbolo da identidade dos campo-maiorenses e, como homenagem, nomes que fazem referência à batalha estão em ruas, prédios públicos, monumentos e na Universidade Estadual do Piauí.

Alegoria-da-Batalha-do-Jenipapo

Foto: Divulgação/Reprodução

O nome do campus

Quem sai de Teresina rumo ao litoral, pela BR 343, mesmo não entrando em Campo Maior, inevitavelmente recebe as boas-vindas do Campus Heróis do Jenipapo, localizado na entrada da cidade, próximo ao posto da Polícia Rodoviária Federal. Um prédio ostentoso, como define a Professora Doutora do curso de História do campus, Iraneide Silva. De acordo com a docente, a UESPI chegou em Campo Maior em 1984, sendo instalada no prédio que antes funcionava o Quartel do Exército Brasileiro, e que por alguns anos funcionou como Centro de Treinamento para professores da Secretaria de Educação.

No entanto, só em 03 de julho de 1993 iniciaram-se efetivamente os primeiros cursos. Ao longo de 10 anos, o campus ficou conhecido como “UESPI de Campo Maior”. Em 11 de dezembro de 2003, passa a ser chamado de “Campus Heróis do Jenipapo”, através da Lei Estadual nº5.358/2003, de autoria do Deputado Estadual João de Deus.

Paulo José da Silva Lopes, que trabalha no local há mais de 30 anos e é colaborador do campus desde que ele foi instituído, lembra que vários nomes foram expostos para consulta e aprovação da comunidade acadêmica na época. “Aqui era só campus de Campo Maior. Então, quando foi colocado esse nome [Heróis do Jenipapo] todo mundo aprovou, já que foi dado em homenagem a Campo Maior, à Batalha do Jenipapo, ao acontecimento que houve na época”, relata.

Colaborador Paulo Silva em frente a fachada da UESPI de Campo Maior

Uma viagem pelo passado

A história do campus se relaciona com a cidade e com a batalha. Segundo a professora Iraneide Silva, consta nos registros do Arquivo Público do Piauí que a freguesia de Campo Maior foi criada por efeito da Carta Régia de 19 de junho de 1761. “Já o jurista campo-maiorense Valdivino Tito afirma que a vila foi instalada em 8 de agosto de 1792, e na ‘cronologia histórica’ de Pereira Costa consta a data de 8 de novembro do referido ano”, conta. Mesmo com a imprecisão de datas oficiais de instalação da vila, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informam que a instalação da vila foi presidida pelo Governador da Capitania do Piauí, João Pereira Caldas e assistida por Francisco Marcelino de Gouvêa e pelo Conselheiro Ultramarino e Ouvidor Geral do Piauí, Luís Duarte Freire.

A UESPI já possuía o prédio na Vila de Campo Maior, que foi elevada à categoria de cidade em 28 de dezembro de 1899, por meio do Decreto nº1. “A cidade cresceu e, junto dela, a necessidade de formação de sua gente”, comenta a professora Iraneide. A UESPI também surge dessa demanda. Segundo a professora, em 1988 o Poder Executivo do Estado ofertou condições de instalação e regulamentação para a UESPI funcionar como Centro de Ensino Superior (CESP). Já em 1991, o então Presidente da República, Itamar Franco, decretou o funcionamento da instituição como estrutura multicampi, com sede em Teresina, com o campus Poeta Torquato Neto. “Desde esse momento, a instituição passou por uma fase de ajustamento, com um processo contínuo de interiorização e de ampliação dos cursos oferecidos”, destaca.

Parte interna do Campus Heróis do Jenipapo, em Campo Maior

Os primeiros campi da UESPI nas cidades no interior do estado foram em Corrente, Floriano, Parnaíba e Picos, todos instalados por Decreto Federal. A professora ressalta que, no ano de 1995, foi aprovado um novo Estatuto para a criação da Fundação Universidade Estadual do Piauí (FUESPI). Instalou-se então o campus de São Raimundo Nonato. A partir de então, os demais campi permanentes foram criados ou oficializados com a aprovação do estatuto, como o campus de Campo Maior.

 Os heróis e heróinas do Jenipapo

O colaborador Paulo Lopes, que acompanhou a chegada da UESPI na cidade, frisa que o campus é de extrema importância para a região, principalmente, para as pessoas da zona rural. Segundo ele, estudam na IES pessoas de Castelo, Juazeiro, São Miguel do Tapuio, Cocal de Telha, Nazaré, Boqueirão, Barras e Cabeceira. “Eu entrei aqui quando tinha 27 anos, hoje tenho 60. Metade da minha vida é aqui dentro. Então eu vi muita coisa se passar e muita gente se formar” afirma. Para ele, o estudante da UESPI de Campo Maior tem um perfil muito semelhante com o nome do campus, são guerreiros e lutadores assim como os heróis da batalha. Também carregam o propósito de libertação dos campo-maiorenses de 1823. “Eles são uns heróis, se manifestam como uns heróis”, afirma, contente.

Professora doutora do curso de História de Campo Maior, Iraneide Silva

A professora Iraneide Silva frisa que muitos sonhos foram realizados na UESPI de Campo Maior. “As formaturas daqui são verdadeiras festas para a cidade, e motivo de orgulho para muitas famílias”, comenta. Quem pôde sentir toda essa emoção um dia foi a egressa do curso de História e atual servidora de Campo Maior, Pauliana Maria de Jesus. De 2009 a 2012 estudou no campus, e hoje pode afirmar com propriedade que o nome dado ao campus representa muito o que ela viveu. “É um nome ideal porque representa a luta. Nós, alunos, conseguimos passar no vestibular. Eu estudei muito, e pra mim foi uma grande realização, fazer um curso que eu sempre me identifiquei. Ele também representa uma certa realidade de Campo Maior, porque o campo-maiorense é um povo guerreiro e lutador. Nós também temos esse ideal, já passa no vestibular, com a concorrência grande, e sai graduado no curso que sonhou cursar”, declara.

Pauliana segue a luta no Mestrado em História do Brasil, da Universidade Federal do Piauí mas, antes de sair da UESPI como estudante, deixou seu legado com a produção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a Batalha do Jenipapo. A egressa escreveu a monografia intitulada Polifonia sobre um campo de batalha: a construção de uma memória social, um trabalho sobre as pessoas que morreram na batalha, os heróis anônimos.

Memória social da Batalha

De acordo com Pauliana o tema escolhido para o TCC foi justamente para entender o fato ocorrido em 1923, que na independência do Brasil era bastante evidente, e muito presente na sociedade campo-maiorense. “Existem muitos prédios, muitas ruas, principalmente, prédios públicos. Nós vemos, então, que esse fato passado está no presente e as que pessoas dão importância a isso”, argumenta.

Aluna egressa e servidora da UESPI de Campo Maior, Pauliana de Jesus

A palavra polifonia refere-se aos discursos em torno da batalha. “São vários discursos que se tem sobre esse fato, relativos à história oral, que vão passando de geração em geração pelos familiares. Eu fiz várias entrevistas, com várias pessoas que vivem ali no Alto do Meio, em Campo Maior. Busquei saber o que a memória sobre a batalha representava para essas pessoas e qual a importância dela não só pra independência do território, mas também para Brasil”, declara.

Segundo a pesquisadora, no dia 13 de março de 1823, ocorreu uma batalha sangrenta onde muitas pessoas morreram. “Os anônimos se tornaram muitos reverenciados, pela população e pelos discursos políticos. Existe uma lei municipal que determina que esse dia é feriado na cidade. É uma data muito reverenciada e importante para a cidade e para a memória. Como também o culto aos mortos, através dos ex-votos das pessoas que pagam promessas lá no monumento da Batalha. Então eu vejo isso como uma memória muito forte, presente e viva”, relata.

Por trás do monumento da Batalha do Jenipapo existe um cemitério dos mortos da Batalha do Jenipapo

Por trás do monumento simbólico existe um cemitério dos mortos da Batalha do Jenipapo

Ela conta que as pessoas começaram a cultuar os anônimos que lutaram porque quando eles morreram não foram identificados. ”Muitos foram só jogados, ou levados, e a gente não sabe se eram 200 ou 400. A gente não sabe ao certo a quantidade. Muitos permaneceram anônimos. Por isso, as pessoas vão lá reverenciar em torno das almas do batalhão. Elas dão uma importância tão grande a isso que se criou essa relação de fé e também com a religiosidade popular”, disse.

Dentre os vários discursos construídos, há também a memória social por parte da elite política. “As pessoas que morreram foram incitadas a ir pra batalha, mas não sabiam nem o significado de liberdade, o que era independência. Em determinado momento houve tipo uma apropriação, principalmente, da elite política local”, salienta. Segundo ela, chamaram pessoas simples e incitaram a ir para a guerra sem armamentos fortes, como os militares de Fidié tinham. A população lutou com as armas e a coragem que tinham.

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O primeiro monumento da Batalha é um obelisco erguido no cemitério dos mortos, local que atualmente é santuário de devoção popular

Para ela, uma forma de adquirir reconhecimento e certo prestígio por parte da elite política, os discursos se voltam para as festas cívicas celebradas no 13 de março, para dar relevância sobre a importância do Piauí no cenário de independência do país. “Além de instituírem o 13 de março como um feriado municipal, a data foi colocada na bandeira do Piauí, em 2005, após a aprovação da Assembleia Legislativa do Estado. Então a gente vê como eles reverenciam esses heróis. É uma forma de buscar reconhecimento, mas há também uma disputa de memória de datas mais importantes. Por exemplo, o dia de 19 de outubro de 1822, que é o dia do Piauí, marca a proclamação da independência, mas nesse dia só foi proclamada. A batalha aconteceu mesmo no dia 13 de março e ainda não existia um reconhecimento por parte do Piauí”, comenta.  Segundo ela, a população campo-maiorense acredita que o dia 13 é que deveria ser o dia do Piauí, porque foi um fato muito importante para história.

Povo guerreiro, lutador e orgulhoso

Para homenagear as pessoas que lutaram na Batalha do Jenipapo, em 1973 foi criado um monumento na cidade de Campo Maior, no governo de Alberto Tavares Silva. De acordo com Paulo Silva, o monumento é muito frequentado, principalmente em 13 de março. “A maioria volta lá, frequenta lá. Fazendo aquele gesto de amor à cidade, ao que aconteceu. Uns se rebelando, outro contato os fatos acontecidos”, comenta.

O monumento da Batalha do Jenipapo é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

A professora Iraneide Silva destaca que a batalha e a repercussão nacional compõem a história e memória social da cidade de Campo Maior. “Para a população, é motivo de orgulho ter esse episódio na história deles. São histórias que são narradas por todos. Não tem quem seja de Campo Maior ou regiões adjacentes que não tenha uma história para contar sobre a Batalha, que não tenha na memória os feitos dos ‘Heróis do Jenipapo’”, pontua.

Pauliana lembra que os campo-maiorenses não ganharam a batalha oficialmente. “A gente perdeu, porque muitos morreram. Mas de qualquer forma fomos vitoriosos porque os campo-maioreses atrapalharam os planos dos portugueses, atrasaram Fidié, que foi encurralado lá no Maranhão”, afirma. Por isso não se consideram perdedores ou derrotados. “Fomos vencedores porque nós lutamos e o que as pessoas carregam é essa questão do ideal, do povo guerreiro, lutador e corajoso. A gente se caracteriza muito com isso, principalmente os estudantes do campus Heróis do Jenipapo que se sentem honrados em ter esse nome no lugar que estudam”, finaliza.


Na segunda reportagem da série “Memória UESPI”, contou-se a história de “Clóvis Moura”, que dá nome ao Campus da universidade localizado no bairro Dirceu Arcoverde, em Teresina. Confira aqui.

Fonte:
Assessoria de Comunicação - UESPI
ascom.uespi@gmail.com